A convite do blog Multiplot!: Top 10 PIORES Filmes do Mundo

Posted in Listas on 19 Outubro, 2008 by flaviocvs

Juro que tentarei não levar em consideração filmes como “Surfe Sangrento”, tentarei não colocar somente Almodóvar, Carlos Saura e Tim Burton, e não vou prestar atenção em comentários do tipo “Ah, ow… Brilho eterno é lindo! Vc que nao entendeu o filme..”.

1- Kika (Pedro Almodóvar, 1993)

2- Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças (Michel Gondry, 2004)

3- Flamenco (Carlos Saura, 1995)

4- Uma Mulher é Uma Mulher (Jean-Luc Godard, 1961)

5- A Noiva Cadáver (Tim Burton, 2005)

6- Magnólia (Paul Thomas Anderson, 1999)

7- O Fabuloso Destino de Amelie Poulain (Jean-Pierre Jeunet, 2001)

8- Halloween, de Rob Zombie (2007)

9- Impulsividade (Mike Mills, 2005)

10-À Espera de Um Milagre (Frank Darabont, 1999)

Menções honrosas: Toda a filmografia de Almodóvar, todos os filmes com a estética plastificada soropositiva listrada de Tim Burton, praticamente todos com Eddie Murphy, Keanu Reeves ou Ben Affleck, musicais estilo Moulin Rouge e Chicago, filmes de pseudo-cults vegetarianos, etc.

O Incrível Cérebro Que Derreteu

Posted in Artigos com as tags , on 7 Outubro, 2008 by flaviocvs

Hora de vender meu peixe.

No primeiro semestre desse ano escrevi o roteiro de O Incrível Cérebro Que Derreteu, curta-metragem que gravei em junho desse ano. Com uma duração de 5 minutos, o curta mostra uma garota dependente química que acorda ao som do despertador às duas horas da madrugada em seu apartamento, repleto de pílulas por todos os lados, levanta-se e vai ao banheiro onde toma um de seus remédios “matinais”. A garota vai até a sala e senta-se à mesa (onde vemos livros abertos, drogas e mais pílulas) com o intuito de estudar. Com dificuldade de se concentrar, a pressão sobre a garota é tanta que essa se vê obrigada a literalmente abrir a cabeça e retirar seu próprio cérebro, colocando-o sobre o livro à sua frente. A personagem, uma vez sem cérebro, levanta-se e vai assistir, em estado catatônico, à televisão enquanto, sobre o livro, seu cérebro se derrete. A atriz é Letícia Pelizzari. A produção ficou por conta de Douglas Lamounier, Daniel Lugão, Wemerson Machado (que também fez os props) e Hilton Júnior. Eu dirigi, escrevi e fiquei por conta dos efeitos visuais e da maquiagem de efeito.

O singelo orçamento foi de quase menos de 200 reais (113, se não fosse um acidente com um espelho que, sozinho, nos custou todo o resto do orçamento). Para as cenas mais explícitas, foram comprados, no total, 5 cérebros de boi mas, devido à dificuldade de trabalhar com o material (acreditem, é difícil manusear um cérebro sem despedaçá-lo), só foi usado um cérebro real em uma das cenas. Nas outras, utilizamos props de argila feitos por Wemerson Machado.

O curta tem natureza surreal e, embora não tenha nenhuma semelhança em termos de conteúdo, seu título é homenagem ao clássico trash de William Sachs, O Incrível Homem Que Derreteu (The Incredible Melting Man, 1982). Ele ainda critica as sociedades disciplinar, do espetáculo e de controle, com ênfase à prática televisiva.

Trechos do curta foram exibidos no programa Brasil das Gerais do dia 30 de julho de 2008, no canal Redeminas.

O DVD, para quem tem interesse, pode ser adquirido comigo por 9 reais + frete (para quem não mora em Belo Horizonte) e oferece som Dolby Digital 5.1. Basta entrar em contato.

Até quarta ou quinta devo escrever o próximo artigo. Provavelmente sobre algum giallo, filme de zumbi italiano ou Re-Animator, de Stuart Gordon. Ainda estou a decidir.

Suguem fotos da produção de O Incrível Cérebro Que Derreteu.

Flávio C. von Sperling (de preto), Wemerson Machado (de laranja) e, ao fundo Leticia Pelizzari

Flávio C. von Sperling (de preto), Wemerson Machado (de laranja) e, ao fundo, Letícia Pelizzari

Wemerson Machado e suas criações de argila

Wemerson Machado e suas criações de argila

Leticia Pelizzari sendo maquiada

Letícia Pelizzari sendo maquiada

Leticia Pelizzari, Flávio C. von Sperling e O Cérebro

Letícia Pelizzari, Flávio C. von Sperling e O Cérebro

Museu de Cera

Posted in Artigos com as tags , , , , on 18 Setembro, 2008 by flaviocvs

Conforme dito, porém com certo atraso, eis o artigo sobre o filme Museu de Cera, de Andre De Toth.

Museu de Cera

Por Flávio C. von Sperling

Um dos maiores marcos no exuberante cinema de terror dos anos 50, e também na carreira do astro Vincent Price, é o macabro filme Museu de Cera, de 1953, dirigido pelo húngaro André de Toth e baseado em uma história de Charles Belden. Museu de Cera foi um dos filmes mais bem-sucedidos e rentáveis do que muitos chamam de “a década de ouro do horror”. Com um modesto orçamento de um milhão de dólares, o filme rendeu quase 28 milhões somente nos Estados Unidos.

A história se passa na Nova York da década de 10. O escultor Prof. Henry Jarrod (Vincent Price em excelente forma) cria belíssimas representações em cera de figuras históricas como Cleópatra, Marco Antônio, Presidente Lincoln e seu assassino, Joana D’Arc, e sua obra prima, a impecável Marie Antoinette, e as expõe no museu de cera cuja posse é dividida com seu arrogante e ganancioso sócio Matthew Burke (Roy Roberts, que teria atuado em mais de 800 produções, incluindo seriados). Jarrod, que cria laços de amizade e até de parentesco com suas esculturas, procura se distanciar de temas macabros, representando somente figuras históricas, enquanto Burke, pensando unicamente na renda que o museu poderia gerar, sugere que Jarrod produza figuras funestas e violentas, a fim de atrair um maior público. Henry Jarrod percebe que a sociedade já não está dando certo e, certa noite, comunica ao sócio que receberá a visita do famoso crítico de arte Sidney Wallace (Paul Cavanagh), que poderia comprar a metade da sociedade pertencente a Burke por um bom preço. Ganancioso, Burke se exalta com a notícia. Na mesma noite, Wallace, recebido por Jarrod, visita o museu, onde é feita a proposta. O crítico diz que está disposto a negociar, mas viajaria em breve para o Egito por três meses, e só poderia fechar o negócio depois de seu retorno. Insatisfeito com a notícia, e sempre atrás de dinheiro rápido, Matthew Burke se lembra de que o museu está assegurado em 25 mil dólares. Ainda na mesma noite, depois que Sidney Wallace deixa o museu, Burke diz ao Prof. Henry Jarrod que sabe como conseguir 12 mil e quinhentos dólares rapidamente. Ele propõe que os dois iniciem um incêndio no museu e dividam o dinheiro do seguro. É desnecessário dizer que a idéia de queimar as criaturas de cera do cuidadoso Prof. Jarrod é prontamente recusada pelo mesmo. Os dois discutem fervorosamente, e Matthew Burke inicia um incêndio. Os dois trocam golpes enquanto vemos as criações do dedicado Prof. Henry Jarrod se derreterem. Durante a briga, esse fica inconsciente, e seu sócio foge, deixando-o a ser incinerado junto às suas obras.

Algum tempo depois, vemos Matthew Burke, antigo sócio de Jarrod, conversando com sua nova namorada, a loira Cathy Gray (Carolyn Jones, a Morticia da série A Família Addams). Ele conta à namorada sobre os recém-recebidos 25 mil dólares e sobre seu antigo sócio, supostamente morto no “acidente”. Os dois planejam, então, uma viagem às Cataratas do Niágara. Matthew vai até seu quarto, onde guardara o dinheiro, e uma sinistra figura de rosto deformado vestida de preto enforca-o e, em seguida, leva seu corpo até o vão do elevador, amarra a corda, e joga-o, fazendo aquilo tudo parecer um suicídio. Cathy, que divide o aluguel de um apartamento com sua amiga Sue Allen (a belíssima Phyllis Kirk), também é assassinada pouco tempo depois, e Sue, ao chegar em casa e constatar que a amiga está morta, vê aquela mesma figura deformada, que a persegue, mas Sue consegue escapar.

Vemos o mesmo homem de preto com o rosto deformado roubando o cadáver de Cathy no necrotério de Nova York e descobrimos, por meio da polícia, que vários corpos têm desaparecido.

Um novo museu de cera é aberto na cidade. E é o próprio Jarrod, que acreditávamos estar morto, quem o abriu. O museu apresenta peças de um realismo impas, e agora conta com a funesta Câmara dos Horrores, dedicada a representações crimes ocorridos e de temas macabros em geral. Dentre seus destaques estão o primeiro prisioneiro nova-iorquino executado na cadeira elétrica, uma execução por guilhotina e o suposto suicídio de seu ex-sócio, Matthew Burke, sujo corpo desapareceu do necrotério. Prof. Jarrod teve, no incêndio, suas pernas queimadas, fazendo necessário o uso de cadeira de rodas, e suas mãos terrivelmente deformadas, o que o impossibilita de criar os novos bonecos de cera. Para tal, ele tem dois ajudantes. O surdo-mudo Igor (interpretado por Charles Bronson no começo de sua carreira. Sim, Charles Bronson. Na época, creditado como Charles Buchinsky) e o ex-presidiário alcoólatra Leon Averill (interpretado pelo ator e roteirista ganhador do prêmio da academia, Nedrick Young, que não pode ter seu nome nos créditos, pois estava sendo perseguido na época do macartismo). No entanto, o infausto Prof. Henry Jarrod procura por mais um ajudante, e encontra, por meio de indicações, o jovem escultor Scott Andrews (Paul Picerni), por coincidência, namorado da bela Sue, já citada.

Prof. Jarrod recebe a visita de Scott Andrews e conhece, por meio desse, Sue, que se parece terrivelmente com sua antiga obra-prima de cera, Maire Antoinette. Jarrod torna-se, então, obsessivo com a beleza de Sue que, impressionada com a primazia e com o realismo das peças de seu museu, choca-se com a semelhança entre a nova Joana D’Arc de Jarrod, e sua falecida amiga Cathy, cujo corpo também fora roubado do cemitério. Sue suspeita de tamanha semelhança, e tem certeza de que há algo realmente fúnebre naquelas peças. O filme prossegue, mas, numa tentativa de não estragá-lo mais ainda, paro meu relato por aqui.

Aqueles acostumados com a presença do mestre Vincent Price podem pular este parágrafo. Price é a peça mais marcante no mise-en-scène de qualquer filme no qual participa. Seu grande porte físico, traços marcantes, fortes e bem definidos, seu tom de voz suave e tenebroso ao mesmo tempo, que misteriosamente exala algum tipo de insanidade e depravação, seu olhar penetrante e hipnótico, sua expressão lúdica e simultaneamente cruel são alguns dos motivos que o fizeram sobressair mesmo entre a cúpula dos maiores astros do cinema de horror, composta por atores como Christopher Lee, Lon Chaney, Peter Cushing, John Carradine e Boris Karloff, e o permitiram interpretar os maiores vilões do cinema clássico de horror. Não é à toa que o músico alvinegro Michael Jackson o escolheu quando precisou de uma voz-over atmosférica e sombria para seu hit Thriller, ou que foi escolhido para apresentar o programa de horror da rádio BBC, “The Price of Fear” e para narrar um trecho do álbum Welcome to My Nightmare, de Alice Cooper.

Museu de Cera filmado e exibido em tecnologia tridimensional. É o primeiro filme 3D de um grande estúdio (no caso, Warner), e foi extremamente bem-sucedido, rendendo, como dito, 28 vezes seu orçamento somente nos Estados Unidos. As versões disponíveis em DVD ou VHS são 2D, sendo o efeito tridimensional uma exclusividade da ocasião de exibição. Para tal, Museu de Cera teve de ser gravado simultaneamente por duas câmeras, sendo uma a visão do olho esquerdo do espectador, e outra, a do direito. Era necessário, também, explorar a profundidade das cenas, por isso foram usadas somente lentes grande angulares. O filme adquiriu, com essa característica, um maior aspecto de atração (o que nos remete aos filmes do período chamado “Primeiro Cinema”, no qual as exibições tinham papel puramente atrativos, uma vez que qualquer forma de representação do real em movimento era novidade), transcendendo o papel do cinema convencional. Algumas tomadas existem com o único objetivo de explorar o efeito tridimensional. Dentre elas, um homem brincando com uma raquete e uma bola, dançarinas de can-can que parecem chutar a platéia, e uma cena na qual Igor entre abruptamente em quadro, vindo de baixo da câmera, dando a impressão de que a pessoa sentada à sua frente no cinema se levantou e “entrou” no filme. É interessante ressaltar que o diretor André de Toth não tinha um dos olhos, não sendo, portanto, capaz de perceber o efeito tridimensional de Museu de Cera, o que só aumenta seu mérito ao fazer um filme lançando mão de recursos cujos resultados ele era incapaz de conferir e julgar.

O intransigente Sâsvari Farkasfawi Tóthfalusi Toth Endre Antai Mihály, pai de 19 filhos (três deles com a atriz Veronica Lake) provenientes de sete casamentos, mais conhecido como Andre De Toth, foi um dos cineastas mais singulares de sua época. Famoso por seus faroestes e filmes de horror, De Toth era, na época, um dos diretores mais requisitados do gênero, sendo conhecido pela sua habilidade de fazer grandes filmes com baixíssimos orçamentos. Polêmico, não hesitava em mostrar violência explícita da maneira mais crua possível. Sábia escolha, por parte dos estúdios da Warner, de escolhê-lo para filmar Museu de Cera, remake de um clássico do prolífico cineasta Michael Curtiz. O original, de 1933, que contava com Lionel Atwill no papel principal, é um filme de caráter mais pueril, com dispensáveis alívios-cômicos, tendo até elementos que nos fazem lembrar as comédias românticas da época, distcom vezeispenscom ake de um clr grandes filmes com baixose Cera, o que sarecem chutar a plate nos Estados Unidos.anciando-se do tom sério e sombrio da história de Charles Belden, representado com maestria e fidelidade no clássico absoluto Museu de Cera, de 1953.

Agradecimentos

Posted in Uncategorized on 11 Setembro, 2008 by flaviocvs

Gostaria de agradecer a TODOS que visitaram o blog O Pássaro das Plumas de Gardenal.

Postei o PRIMEIRO texto na noite do dia 8 de setembro de 2008. Agora são 0h46min do dia 10 para o dia 11. Em dois dias, o blog recebeu 180 visitas!

Continuem apoiando O Pássaro das Plumas de Gardenal.

Pretendo, toda segunda-feira, postar um artigo sobre um filme diferente (no mesmo estilo do texto sobre The Last House on the Left) e, durante a semana, devo postar textos menores, indicações de filmes, fazer enquetes, etc.

Obrigado!

Divulguem o blog. Critiquem!

Flávio C. von Sperling

The Last House on the Left (Aniversário Macabro)

Posted in Artigos com as tags , , , , , , on 10 Setembro, 2008 by flaviocvs

Segundo texto que posto no blog O Pássaro das Plumas de Gardenal.

Aviso desde já, CONTÉM SPOILERS, uma vez que é impossível fazer uma análise do filme Aniversário Macabro sem que se leve em conta momentos da parte final do filme.

Comente, critique, sugira, xingue. Mas leia e divulgue. Incentive o blog O Pássaro das Plumas de Gardenal.

The Last House on The Left

“Piss your pants!” – Krug Stillo

Por Flávio C. von Sperling

Cru. Esse é o primeiro adjetivo que me vem à cabeça quando penso no filme The Last House on the Left, de 1972, dirigido por Wes Craven (lançado no Brasil em VHS como Aniversário Macabro).

O filme é fruto da era de pessimismo que se instalou nos EUA no final dos anos 60 e durante os anos 70, e que teve como resultado as maiores jóias do cinema exploitation, como os clássicos “A Vingança de Jennifer” (Day of The Woman. aka I Spit on Your Grave. 1978, de Meir Zarchi), “O Massacre da Serra Elétrica” (The Texas Chainsaw Massacre. 1974, de Tobe Hooper) e os filmes de Herschell Gordon Lewis, como The Wizard of Gore (1970) e The Gore-Gore Girls (1972). Isso sem falar dos filmes europeus, principalmente os italianos, da década de 70, como o claustrofóbico Rabid Dogs (1974), o famigerado Cannibal Holocaust (1979) e os vários excelentes gialli, que serão objeto de um texto posterior (os filmes europeus talvez já não tenham qualquer ligação com o cenário social e político estadunidense da época, mas isso também é discussão para um outro possível texto…). No entanto, dentro dessa enorme gama de filmes transgressores que inundaram a cena exploitation da época, poucos são tão sádicos e brutais quanto o primeiro filme de Wes Craven, The Last House on the Left, ou, literalmente traduzido, A Última Casa à Esquerda.

Mari Collingwood (Sandra Cassel) é uma bela adolescente prestes a completar seus 18 anos. Ela mora com seus pais (Estelle e Dr. John, interpretados por Cynthia Carr e Richard Towers) no pacato subúrbio de Nova York e, na véspera de seu aniversário, decide ir com a amiga Phyllis Stone (Lucy Grantham) à cidade para assistir ao show da banda de rock Bloodlust. No caminho para o concerto, Mari e Phyllis passam por um bairro perigoso, e procuram alguém que possa vendê-las um pouco de maconha. É quando encontram Junior Stillo (Marc Sheffler), que diz ter uma quantidade de erva colombiana para vender, e as convida para seu apartamento. Mari e Phyllis se deparam, então, com uma gangue de quatro psicopatas nada filantrópicos, foragidos da justiça. Eles são o pederasta estuprador Fred Weasel (vivido pelo diretor pornô Fred J. Lincoln), o próprio Junior Stillo, viciado em drogas, Sadie (Jeramie Rain), transtornada e bissexual e, finalmente, seu namorado e pai de Junior: Krug Stillo (David Hess numa imortal e convincente atuação), que cumpria pena pelo assassinato de um padre e duas freiras. Simplesmente o psicopata mais doentio e cruel já visto no cinema. As garotas sofrem degradações psicológicas e Phyllis é estuprada, tudo isso acompanhado de uma edição bizarra (da qual falarei mais tarde) que intercala cenas dos abusos e cenas dos pais de Mari preparando a festa de aniversário da filha, ao som de uma trilha “country-alegre” bem inusitada. Corta para a manhã seguinte. Os criminosos colocam as garotas, inconscientes (o que sugere que foi feito algo mais terrível do que foi mostrado em cena), dentro do porta-malas de um carro, e seguem viagem para sair do estado. Enquanto isso, os pais de Mari Collingwood, preocupados com o seu desaparecimento, acionam a polícia local, composta por dois oficiais ridículos e patetas, que servirão de alívio-cômico. Sem muito sucesso.

Os diálogos entre os quatro fugitivos, tanto na cena anterior (do apartamento) quanto durante a viagem de carro, servem quase que exclusivamente para mostrar e antecipar ao espectador a demência e a sordidez do grupo, que serão explicitamente mostradas em seguida, com requintes de crueldade. O carro dos criminosos tem um defeito mecânico, que os obriga a parar à beira da estrada, pegar as garotas no bagageiro e andar mata adentro, para que não fiquem expostos na rodovia. É então que os sádicos psicopatas encontram o que seria o lugar perfeito para praticarem suas atrocidades contra as duas adolescentes. O que não sabiam era que, logo ao lado, ali na Última Casa à Esquerda, morava a família Collingwood. Ironicamente, os dois policiais, ao saírem da casa do preocupado casal Collingwood, passam pelo carro abandonado e o ignoram. Inicia-se, nesse momento, a poucos metros da estrada, um festival de violência brutal, sádica, cruel, fria, sórdida e pungente, tanto física quanto psicológica.

O chefe da gangue, Krug Stillo, obriga Phyllis a urinar em suas próprias calças, numa cena de intensa humilhação. Em seguida, as duas jovens são obrigadas a praticarem sexo, numa cena que só pode incitar algum traço de sensualismo e erotismo à mente mais perturbada. Ao mesmo tempo acompanhamos, em uma montagem alternada, a subtrama (de humor barato) dos ridículos e burlescos policiais que localizam o carro dos fugitivos à beira da estrada, saem em busca dos assassinos, mas se lembram, tarde demais, de que um deles esqueceu de colocar gasolina na viatura, que falha no meio do caminho, obrigando-os a seguirem a pé. De volta à trama principal, após mais abusos sexuais contra as adolescentes, Phyllis diz à amiga que tentará fugir e, enquanto ocupa os criminosos em sua fuga, Mari deve buscar ajuda. Phyllis corre e é perseguida por Krug, Weasel e Sadie, que deixam Mari aos cuidados do perturbado e patético Junior. É desnecessário dizer que Phyllis é alcançada e os três a fazem se arrepender da tentativa de fuga. A garota é apunhalada pelas costas e rasteja, sangrando, até uma árvore não muito longe dali, onde será repetidamente apunhalada e será desferido o golpe final contra a jovem Phyllis, que tem seu peito aberto e “investigado” por Sadie (cena que não pôde ser mais explícita devido à censura. Mas a cena original existe e está disponível nos extras do DVD americano. Trata-se de uma seqüência insana, relativamente longa, na qual Sadie brinca com as vísceras de Phyllis, de maneira tão explícita que nos faz lembrar os filmes italianos de canibais, como Cannibal Holocaust e Cannibal Ferox, ou os filmes de Herschell Gordon Lewis, Lucio Fulci, etc.). Enquanto isso, Mari tenta convencer o jovem Junior a deixá-la partir, e, para tal, presenteia-o com o colar que ganhou de seus pais na noite anterior, além de dizer que Junior não precisa de seu pai Krug para fornecê-lo drogas, pois o próprio pai de Mari, Dr. Collingwood, é especialista em drogas e pode dá-las a Junior. Ele sucumbe, e os dois partem rumo à casa de Mari, no entanto, Krug os encontra às margens de um lago e, após mostrar a Mari a mão de Phyllis decepada, escreve seu nome a cortes de faca no peito da jovem Mari, que é, em seguida, estuprada. Mari, em estado de choque, em uma das cenas mais tristes do filme, anda lentamente lago adentro, onde é repetidamente baleada pelo cruel Krug Stillo. Mais uma vez, toda essa seqüência de brutalidades é intercalada com cenas da subtrama dos policiais que, enquanto isso, são xingados por um grupo de hippies, e caem do teto de um caminhão de galinhas, guiado por uma caricata negra banguela (???), ao tentarem pegar carona com a mesma. Tudo ao som da mesma trilha “country-alegre”.

Após o duplo assassinato, os quatro criminosos lavam o sangue de suas mão e faces, trocam de roupa, e decidem, inadvertidamente, pedir abrigo na casa da família Collingwood. O hospitaleiro casal, apesar de extremamente amargurado com o sumiço da filha, os acolhe de forma cordial, os aloja no quarto de Mari e serve-os um jantar. É angustiante ver os assassinos sendo tratados tão bem pelos pais de uma de suas vítimas, e tudo que desejamos nesse momento é a morte dos quatro algozes. Junior tem uma crise de abstinência de drogas, começa a vomitar continuamente e Estelle Collingwood, mãe de Mari, vai até o banheiro socorre-lo. Ela percebe, então, o colar da filha sendo usado por Junior, fazendo-a ligas as peças e perceber que os hóspedes tinham algo a ver com o desaparecimento de Mari. Ela e John, seu marido, rondam a região em busca de vestígios da filha, e encontram seu corpo no lago próximo. O casal arquiteta, então, um brutal plano de vingança, que inclui eletrocussão, castração por meios nada cirúrgicos, execução por serra elétrica, etc. O filme termina de maneira nauseante. Se antes queríamos a morte dos quatro assassinos, agora desejamos que esse filme não existisse. Não há, nesse momento, um sentimento de vitória, um sentimento de justiça executada. Há apenas amargura. Apenas.

O leitor mais astuto deve, a essa altura, ter percebido certa semelhança entre o roteiro de The Last House… e o do clássico sueco A Fonte da Donzela (Jungfrukällan, 1960), de Ingmar Bergman. Passado no século XXIV, A Fonte da Donzela conta uma história semelhante, de uma garota que sai de casa para ir à igreja, mas é estuprada por pastores, que procuram abrigo na casa da vítima. Os estupradores tentam vender as roupas da garota para seus pais, que logo as reconhecem, e armam seu plano de vingança. De fato, The Last House on the Left é uma refilmagem adaptada e atualizada do clássico de 1960. É desnecessário expor as (inúmeras) divergências entre as obras e a superioridade (artística, no mínimo) do filme de Bergman.

The Last House on the Left é um violento soco no estômago do espectador. O filme foi gravado em circunstâncias amadoras, o que o confere um caráter quase documental, não fosse a subtrama cômica dos dois policiais, que serve puramente como alívio-cômico, de extremo mau gosto, para alguns.

A trilha sonora de The Last House on the Left também merece destaque. Inusitada, é uma mistura de acid rock e country, e é usada principalmente nos momentos de alívio-cômico, porém nada condizente à natureza do filme como um todo. Exceto, talvez, pela canção The Road Leads to Nowhere, que sintetiza o sentimento que temos ao final do filme, ao vermos os pais de Mari se rebaixarem ao nível de seus assassinos e porem em prática sua vingança animalesca.

Não é um filme realmente agradável de se ver, mas é uma importantíssima obra do cinema exploitation, assim como o segundo filme de Craven, Quadrilha de Sádicos (The Hills Have Eyes, 1977), o é.

Ao contrário do que muitos pensaram, a polêmica acerca de The Last House on the Left, os problemas com a censura, e a violência extrema não foram empecilhos para o futuro sucesso do diretor Wes Craven. Cinco anos depois, ele fez o já citado Quadrilha de Sádicos, criou, na década de 80, o imortal vilão Freddie Krueger (cujo sobrenome foi inspirado no do psicopata Krug Stillo) com A Hora do Pesadelo (A Nightmare on Elm Street, 1984), e se tornou comercialmente famoso com a série Pânico (Scream, iniciada em 1996), que reviveu o gênero slasher na segunda metade da década de cinqüenta, mas, infelizmente, trouxe consigo inúmeros filmes de baixíssima qualidade, feitos para (e “por”, parece) adolescentes, que tentaram seguir os moldes dos slashers tradicionais. The Last House on the Left é fruto da parceria entre os cineastas Wes Craven e Sean S. Cunningham (produtor de The Last House…), que produziu e dirigiu, posteriormente, o primeiro filme da série Sexta-Feira 13, uma das mais famosas e rentáveis entre os filmes de horror.

Doentio, perturbador e chocante, The Last House on the Left é um filme obrigatório àqueles que se interessam por cinema extremo e/ou de horror. E somente àqueles que têm nervos de aço, é claro.

Halloween – 30 Anos de Terror

Posted in Artigos com as tags , , , , on 8 Setembro, 2008 by flaviocvs

Inauguro este blog, dedicado a críticas e artigos sobre filmes, com um pequeno texto que escrevi para o jornal Plano Geral (organizado e idealizado por Thiago Barcellos):

Halloween – 30 Anos de Terror

Por Flávio C. von Sperling

Poster original de Halloween (78)

Poster original de Halloween (78)

25 de outubro de 1978. Estados Unidos. Alguns milhares de jovens e adultos iam, como de rotina, ao cinema ou ao drive-in mais próximo, para assistir ao último lançamento: na ocasião, Halloween, de John Carpenter. Não sabiam que estavam prestes a contemplar uma das maiores pérolas do cinema de horror de todos os tempos.

Em princípio, Halloween parecia mais um filme do estilo “psicopata retalha jovens libidinosos”, gênero mais popularmente conhecido como slasher. De fato o é, porém de uma maestria além de todos aqueles outros que já haviam sido vistos, ou que viriam a ser. Fato é que o gênero slasher ainda não havia sido bem definido, e não tínhamos um leque tão rico de filmes desse gênero. Tínhamos, em seus anais, excelentes obras como O Massacre da Serra Elétrica (The Texas Chainsaw Massacre, 1974), de Tobe Hooper, Aniversário Macabro (The Last House on The Left, 1972) e Quadrilha de Sádicos (The Hills Have Eyes, 1977) ambos de Wes Craven, mas que, na verdade, são predecessores dos slasher típicos, da fase pós-Halloween, que viriam a bombardear os drive-ins e os cinemas Grindhouse durante a década de oitenta, extremamente influenciados pelo filme de Carpenter.

John Carpenter já era conhecido pelos seus filmes de horror e ficção científica da década de setenta, como Dark Star (1974) e Assalto ao 13º DP (Assault on Precinct 13, 1976), mas foi com Halloween que ele provou sua primazia, quando o assunto é terror. Com um orçamento modesto de 320 mil dólares, sem abusar de litros de sangue ou mutilações explícitas, mas proporcionando medo e calafrios como poucas produções o fizeram, Halloween se tornou um dos filmes mais cultuados do gênero.

O roteiro escrito por John Carpenter e pela produtora Debra Hill é simples, como é comum no gênero. A história começa na noite de Halloween de 1963, na pequena cidade de Haddonfield, Illinois. Através de um bem conduzido plano seqüência de mais de quatro minutos, inspirado pela memorável cena de abertura de A Marca da Maldade (Touch of Evil, 1958), de Orson Welles, acompanhamos, em câmera subjetiva, o pequeno Michael Myers (então com apenas seis anos de idade), que circunda sua própria casa e observa, pela janela, a irmã Judith Myers e seu namorado, que logo sobem as escadas para uma efêmera sessão de sexo. O garoto entra na casa, se arma com uma enorme faca de cozinha, vai em direção ao quarto da garota, ainda em tempo de ver o ligeiro namorado se despedir de Judith. Michael sobe as escadas, cobre seu rosto com uma máscara de palhaço, adentra o quarto da irmã, a vê ainda nua e, enquanto ela grita, ele a apunhala repetidas vezes. Ele sai de casa, no exato momento em que seus pais chegam e retiram sua máscara. Vemos, em seguida (agora não mais em subjetiva), junto com os pais perplexos, o semblante frio do pequeno Michael Myers a segurar a enorme faca ensangüentada. 15 anos depois, Michael Myers consegue fugir do hospital psiquiátrico de Smith’s Grove, onde estava sob a tutela do psiquiatra Dr. Sam Loomis (vivido pelo excelente ator inglês Donald Pleasence) desde o assassinato de Judith, e parte para Haddonfield (dirigindo um carro, apesar de ter ficado enclausurado desde os seis anos de idade. Um dos furos no roteiro de Carpenter e Hill).

Michael Myers, de volta à cidade natal, saqueia uma loja (da qual leva facas, uma corda e sua clássica máscara branca, sem expressão), e prepara seu próximo massacre, tomando como principal alvo a jovem Laurie Strodie (interpretada pela então iniciante Jamie Lee Curtis). O que se segue são cenas de suspense extremo. Myers, apesar de não entrar em cena freqüentemente, nos surpreende com aparições súbitas e nos dá uma horripilante sensação de onipresença. Destaque para os últimos 30 minutos do filme, extremamente tensos e violentos, apesar dele ter uma singela contagem de corpos de apenas cinco desafortunados (e dois cães).

A fotografia do experiente Dean Cundey, inspirada na dos filmes de Dario Argento e na de George Folsey em Agora Seremos Felizes (Meet Me in St. Louis, 1944), conjuga sombra e luz de maneira magistral e, aliada à trilha sonora do próprio Carpenter (e que ainda conta com a canção Don’t Fear The Reaper, da banda Blue Öyster Cult) e à respiração abafada de Michael Myers, confere às cenas um clima de terror e suspense inigualável, fazendo desnecessário o apelo para sustos baratos e violência gráfica extrema, como foi comum nos slashers pós-Halloween. Apesar de Halloween ser de uma violência pungente e brutal, pouco é mostrado on-screen, sendo usada pouquíssima quantidade de sangue, e fazendo com que as cenas chocantes sejam, mais uma vez, mérito da maestria de John Carpenter.

Halloween, além de ser o apogeu precoce do cinema slasher, marcou também a carreira da atriz Jamie Lee Curtis, que se tornou uma das Rainhas do Grito (ou scream-queens, como são chamadas as heroínas dos filmes de horror) mais famosas das últimas décadas, e criou o assassino Michael Myers que está no panteão dos maiores vilões de todos os tempos, ao lado dos também memoráveis Leatherface, Jason Voorhees, Freddy Krueger, etc. O filme de John Carpenter teve tamanho sucesso, que foram feitas 7 continuações. Algumas abaixo do medíocre, outras, melhores. Fato é que essas continuações tornaram a série Halloween uma das mais rentáveis de todos os tempos. O clássico de 78 foi ainda, no ano passado, maculado por um terrível remake dirigido pelo músico aspirante a cineasta, Rob Zombie. Péssimo presente de aniversário. Halloween completa, em 2008, seus 30 anos de existência, e será lembrado, com certeza, por mais muitas gerações, que o verão e reverão mais inúmeras vezes.