The Last House on the Left (Aniversário Macabro)

Segundo texto que posto no blog O Pássaro das Plumas de Gardenal.

Aviso desde já, CONTÉM SPOILERS, uma vez que é impossível fazer uma análise do filme Aniversário Macabro sem que se leve em conta momentos da parte final do filme.

Comente, critique, sugira, xingue. Mas leia e divulgue. Incentive o blog O Pássaro das Plumas de Gardenal.

The Last House on The Left

“Piss your pants!” – Krug Stillo

Por Flávio C. von Sperling

Cru. Esse é o primeiro adjetivo que me vem à cabeça quando penso no filme The Last House on the Left, de 1972, dirigido por Wes Craven (lançado no Brasil em VHS como Aniversário Macabro).

O filme é fruto da era de pessimismo que se instalou nos EUA no final dos anos 60 e durante os anos 70, e que teve como resultado as maiores jóias do cinema exploitation, como os clássicos “A Vingança de Jennifer” (Day of The Woman. aka I Spit on Your Grave. 1978, de Meir Zarchi), “O Massacre da Serra Elétrica” (The Texas Chainsaw Massacre. 1974, de Tobe Hooper) e os filmes de Herschell Gordon Lewis, como The Wizard of Gore (1970) e The Gore-Gore Girls (1972). Isso sem falar dos filmes europeus, principalmente os italianos, da década de 70, como o claustrofóbico Rabid Dogs (1974), o famigerado Cannibal Holocaust (1979) e os vários excelentes gialli, que serão objeto de um texto posterior (os filmes europeus talvez já não tenham qualquer ligação com o cenário social e político estadunidense da época, mas isso também é discussão para um outro possível texto…). No entanto, dentro dessa enorme gama de filmes transgressores que inundaram a cena exploitation da época, poucos são tão sádicos e brutais quanto o primeiro filme de Wes Craven, The Last House on the Left, ou, literalmente traduzido, A Última Casa à Esquerda.

Mari Collingwood (Sandra Cassel) é uma bela adolescente prestes a completar seus 18 anos. Ela mora com seus pais (Estelle e Dr. John, interpretados por Cynthia Carr e Richard Towers) no pacato subúrbio de Nova York e, na véspera de seu aniversário, decide ir com a amiga Phyllis Stone (Lucy Grantham) à cidade para assistir ao show da banda de rock Bloodlust. No caminho para o concerto, Mari e Phyllis passam por um bairro perigoso, e procuram alguém que possa vendê-las um pouco de maconha. É quando encontram Junior Stillo (Marc Sheffler), que diz ter uma quantidade de erva colombiana para vender, e as convida para seu apartamento. Mari e Phyllis se deparam, então, com uma gangue de quatro psicopatas nada filantrópicos, foragidos da justiça. Eles são o pederasta estuprador Fred Weasel (vivido pelo diretor pornô Fred J. Lincoln), o próprio Junior Stillo, viciado em drogas, Sadie (Jeramie Rain), transtornada e bissexual e, finalmente, seu namorado e pai de Junior: Krug Stillo (David Hess numa imortal e convincente atuação), que cumpria pena pelo assassinato de um padre e duas freiras. Simplesmente o psicopata mais doentio e cruel já visto no cinema. As garotas sofrem degradações psicológicas e Phyllis é estuprada, tudo isso acompanhado de uma edição bizarra (da qual falarei mais tarde) que intercala cenas dos abusos e cenas dos pais de Mari preparando a festa de aniversário da filha, ao som de uma trilha “country-alegre” bem inusitada. Corta para a manhã seguinte. Os criminosos colocam as garotas, inconscientes (o que sugere que foi feito algo mais terrível do que foi mostrado em cena), dentro do porta-malas de um carro, e seguem viagem para sair do estado. Enquanto isso, os pais de Mari Collingwood, preocupados com o seu desaparecimento, acionam a polícia local, composta por dois oficiais ridículos e patetas, que servirão de alívio-cômico. Sem muito sucesso.

Os diálogos entre os quatro fugitivos, tanto na cena anterior (do apartamento) quanto durante a viagem de carro, servem quase que exclusivamente para mostrar e antecipar ao espectador a demência e a sordidez do grupo, que serão explicitamente mostradas em seguida, com requintes de crueldade. O carro dos criminosos tem um defeito mecânico, que os obriga a parar à beira da estrada, pegar as garotas no bagageiro e andar mata adentro, para que não fiquem expostos na rodovia. É então que os sádicos psicopatas encontram o que seria o lugar perfeito para praticarem suas atrocidades contra as duas adolescentes. O que não sabiam era que, logo ao lado, ali na Última Casa à Esquerda, morava a família Collingwood. Ironicamente, os dois policiais, ao saírem da casa do preocupado casal Collingwood, passam pelo carro abandonado e o ignoram. Inicia-se, nesse momento, a poucos metros da estrada, um festival de violência brutal, sádica, cruel, fria, sórdida e pungente, tanto física quanto psicológica.

O chefe da gangue, Krug Stillo, obriga Phyllis a urinar em suas próprias calças, numa cena de intensa humilhação. Em seguida, as duas jovens são obrigadas a praticarem sexo, numa cena que só pode incitar algum traço de sensualismo e erotismo à mente mais perturbada. Ao mesmo tempo acompanhamos, em uma montagem alternada, a subtrama (de humor barato) dos ridículos e burlescos policiais que localizam o carro dos fugitivos à beira da estrada, saem em busca dos assassinos, mas se lembram, tarde demais, de que um deles esqueceu de colocar gasolina na viatura, que falha no meio do caminho, obrigando-os a seguirem a pé. De volta à trama principal, após mais abusos sexuais contra as adolescentes, Phyllis diz à amiga que tentará fugir e, enquanto ocupa os criminosos em sua fuga, Mari deve buscar ajuda. Phyllis corre e é perseguida por Krug, Weasel e Sadie, que deixam Mari aos cuidados do perturbado e patético Junior. É desnecessário dizer que Phyllis é alcançada e os três a fazem se arrepender da tentativa de fuga. A garota é apunhalada pelas costas e rasteja, sangrando, até uma árvore não muito longe dali, onde será repetidamente apunhalada e será desferido o golpe final contra a jovem Phyllis, que tem seu peito aberto e “investigado” por Sadie (cena que não pôde ser mais explícita devido à censura. Mas a cena original existe e está disponível nos extras do DVD americano. Trata-se de uma seqüência insana, relativamente longa, na qual Sadie brinca com as vísceras de Phyllis, de maneira tão explícita que nos faz lembrar os filmes italianos de canibais, como Cannibal Holocaust e Cannibal Ferox, ou os filmes de Herschell Gordon Lewis, Lucio Fulci, etc.). Enquanto isso, Mari tenta convencer o jovem Junior a deixá-la partir, e, para tal, presenteia-o com o colar que ganhou de seus pais na noite anterior, além de dizer que Junior não precisa de seu pai Krug para fornecê-lo drogas, pois o próprio pai de Mari, Dr. Collingwood, é especialista em drogas e pode dá-las a Junior. Ele sucumbe, e os dois partem rumo à casa de Mari, no entanto, Krug os encontra às margens de um lago e, após mostrar a Mari a mão de Phyllis decepada, escreve seu nome a cortes de faca no peito da jovem Mari, que é, em seguida, estuprada. Mari, em estado de choque, em uma das cenas mais tristes do filme, anda lentamente lago adentro, onde é repetidamente baleada pelo cruel Krug Stillo. Mais uma vez, toda essa seqüência de brutalidades é intercalada com cenas da subtrama dos policiais que, enquanto isso, são xingados por um grupo de hippies, e caem do teto de um caminhão de galinhas, guiado por uma caricata negra banguela (???), ao tentarem pegar carona com a mesma. Tudo ao som da mesma trilha “country-alegre”.

Após o duplo assassinato, os quatro criminosos lavam o sangue de suas mão e faces, trocam de roupa, e decidem, inadvertidamente, pedir abrigo na casa da família Collingwood. O hospitaleiro casal, apesar de extremamente amargurado com o sumiço da filha, os acolhe de forma cordial, os aloja no quarto de Mari e serve-os um jantar. É angustiante ver os assassinos sendo tratados tão bem pelos pais de uma de suas vítimas, e tudo que desejamos nesse momento é a morte dos quatro algozes. Junior tem uma crise de abstinência de drogas, começa a vomitar continuamente e Estelle Collingwood, mãe de Mari, vai até o banheiro socorre-lo. Ela percebe, então, o colar da filha sendo usado por Junior, fazendo-a ligas as peças e perceber que os hóspedes tinham algo a ver com o desaparecimento de Mari. Ela e John, seu marido, rondam a região em busca de vestígios da filha, e encontram seu corpo no lago próximo. O casal arquiteta, então, um brutal plano de vingança, que inclui eletrocussão, castração por meios nada cirúrgicos, execução por serra elétrica, etc. O filme termina de maneira nauseante. Se antes queríamos a morte dos quatro assassinos, agora desejamos que esse filme não existisse. Não há, nesse momento, um sentimento de vitória, um sentimento de justiça executada. Há apenas amargura. Apenas.

O leitor mais astuto deve, a essa altura, ter percebido certa semelhança entre o roteiro de The Last House… e o do clássico sueco A Fonte da Donzela (Jungfrukällan, 1960), de Ingmar Bergman. Passado no século XXIV, A Fonte da Donzela conta uma história semelhante, de uma garota que sai de casa para ir à igreja, mas é estuprada por pastores, que procuram abrigo na casa da vítima. Os estupradores tentam vender as roupas da garota para seus pais, que logo as reconhecem, e armam seu plano de vingança. De fato, The Last House on the Left é uma refilmagem adaptada e atualizada do clássico de 1960. É desnecessário expor as (inúmeras) divergências entre as obras e a superioridade (artística, no mínimo) do filme de Bergman.

The Last House on the Left é um violento soco no estômago do espectador. O filme foi gravado em circunstâncias amadoras, o que o confere um caráter quase documental, não fosse a subtrama cômica dos dois policiais, que serve puramente como alívio-cômico, de extremo mau gosto, para alguns.

A trilha sonora de The Last House on the Left também merece destaque. Inusitada, é uma mistura de acid rock e country, e é usada principalmente nos momentos de alívio-cômico, porém nada condizente à natureza do filme como um todo. Exceto, talvez, pela canção The Road Leads to Nowhere, que sintetiza o sentimento que temos ao final do filme, ao vermos os pais de Mari se rebaixarem ao nível de seus assassinos e porem em prática sua vingança animalesca.

Não é um filme realmente agradável de se ver, mas é uma importantíssima obra do cinema exploitation, assim como o segundo filme de Craven, Quadrilha de Sádicos (The Hills Have Eyes, 1977), o é.

Ao contrário do que muitos pensaram, a polêmica acerca de The Last House on the Left, os problemas com a censura, e a violência extrema não foram empecilhos para o futuro sucesso do diretor Wes Craven. Cinco anos depois, ele fez o já citado Quadrilha de Sádicos, criou, na década de 80, o imortal vilão Freddie Krueger (cujo sobrenome foi inspirado no do psicopata Krug Stillo) com A Hora do Pesadelo (A Nightmare on Elm Street, 1984), e se tornou comercialmente famoso com a série Pânico (Scream, iniciada em 1996), que reviveu o gênero slasher na segunda metade da década de cinqüenta, mas, infelizmente, trouxe consigo inúmeros filmes de baixíssima qualidade, feitos para (e “por”, parece) adolescentes, que tentaram seguir os moldes dos slashers tradicionais. The Last House on the Left é fruto da parceria entre os cineastas Wes Craven e Sean S. Cunningham (produtor de The Last House…), que produziu e dirigiu, posteriormente, o primeiro filme da série Sexta-Feira 13, uma das mais famosas e rentáveis entre os filmes de horror.

Doentio, perturbador e chocante, The Last House on the Left é um filme obrigatório àqueles que se interessam por cinema extremo e/ou de horror. E somente àqueles que têm nervos de aço, é claro.

8 Respostas para “The Last House on the Left (Aniversário Macabro)”

  1. “It’s only a movie, it’s only a movie”

    Excelente filme. Assim como dito no texto um dos pioneiros de um dos generos mais interessantes e indecifraveis do cinema: o exploitation.

    Bom texto, flamingo!

  2. Bacaana!!
    Parabens pela análise flamingo!!
    Muito bom mesmo! Parabens pela iniciativa e excelente bom gosto na escolha dos filmes. Gostaria tb de ver um post sobre o comentadíssimo “The Incredible Brain that Liquefy”, uma grande jogada de um diretor contemporâneo mestre do terror… Fica ae então o pedido!

    Grande abraço man!

  3. Ainda acho melhor a gnt ir ver o filme do pelé…

    e acho paia vc ficar contando detalhes do final do filme…

    vc tem esse ai pra mim empresta ou terei que piratear?

  4. Muito bom.
    Bom, nao vi o filme.
    [mas sinceramente já estou baixando]
    Volto daqui uns tempos e comento de novo.

  5. agarotadocérebro Diz:

    Adorei a crítica.. pretendo assistir tbm.. vc sabe q nao gosto mto dessas coisas mas vc esta até tornando meu interesse razoável.. =P..

  6. Conheci o blog hj e achei ótimo. Parabéns pela crítica. Ja estou baixando o filme.

    Sucesso com o blog.

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